"UMA DEFINIÇÃO DEFINE O DEFINIDOR"
"UMA DEFINIÇÃO DEFINE O DEFINIDOR"
Esta foi há uns 12 anos.
Lá em casa éramos três: Minha Vó, mãe e eu. As duas voltaram para nossa cidade e eu tive que ficar. Anos se passaram e a iniludível veio buscar nossa matriarca. Perdi meu chão; eu era apaixonada por Minha Vó.
Estava deprimida com a partida dela, chorava toda noite, não dormia direito, não me alimentava direito, emagreci horrores em pouco tempo.
Para completar, mãe adoeceu um ano depois. Câncer de pulmão.
E eu longe 24h terrestres.
Aturdida, sem saber o que fazer, como fazer... Falava com mãe todo dia, no intervalo dos colégios. Minhas coordenadoras já sabiam e reservaram uma saletinha para eu poder conversar no celular com mãe.
Pois bem. Nesse estado sobrevivendo com a deprê, conheci um vizinho na lan house do bairro.
Conversa vem, conversa vai, fiquei triste com a história triste do moço: expulso de casa pelo padrasto, morava de favor na casa de uma tia, dormindo na área de serviço, sob a roupa pendurada no varal.
Eu precisava de alguém para me dar suporte, ele precisava de um lugar. Parecia perfeito, não é?
Mas eu não me atentei para o modo como ele falava dos outros, eu nunca perguntei por que o padrasto o havia expulso de casa e - pior! - por que a mãe dele não fez nem disse nada a favor dele??
Tampouco questionei porque, se ele trabalhava, não tinha alugado um quarto para morar?
Não perguntei nada disso nem antes nem depois, mas tenho cá minhas suspeitas.
Nos primeiros meses, tudo correu bem.
Mas...! Um belo dia, ele me contou que tinha largado o trabalho e não ia poder ajudar (ele já pagava bem menos da metade das despesas) até arranjar outra coisa.
Essa "outra coisa" nunca apareceu.
Como eu passava o dia fora, a conta de luz, que à época era R$ 50 e pouco, pulou para +R$ 200, contando-me que o sujeito passava o dia todo em casa esbanjando energia.
A comida sumiu mais rapidamente - o bonito chamava os amigos para lanchar com ele, consumindo o que eu comprava para o mês.
Eu, deprimida, enlutada pela Minha Vó, preocupada com mãe, trabalhando, fazendo teatro, estudando... nem prestava atenção no que acontecia na minha casa.
Depois, aconteceu de eu chegar do trabalho à noite e a pia cheia de louça suja.
Uma noite, tá, limpei. Alguns dias depois, essa prática se repetindo, chamei à razão.
Houve ainda muitos acontecimentos, mas vou pular para o pré-ápice.
Mãe faleceu. Um ano e alguns meses depois da Minha Vó. E o alecrim furta-cor ao celular com um dos amigos dele:
- Vem comemorar teu niver aqui em casa amanhã, a gente joga videogame, come alguma coisa...
Incrédula, eu o interrompi:
- Ei, tu sabes que estou de luto?!!
Ele fez um muxoxo e voltou ao celular, saindo da sala:
- A Tetê não QUER a gente aqui na casa DELA.
Juro que, nessa hora, compreendi o padrasto dele. Mas não sabia como pedir-lhe para sair de minha casa, não naquele momento. Minhas preocupações eram outras.
Como se o folgado não bastasse, um dos amigos dele ligava para o telefone fixo de casa e quando eu atendia, ele desligava na minha cara. Uma, duas, três... até que o Folgado (chamá-lo-ei assim) atendesse. Disse-lhe para dizer ao amigo que não fizesse mais isso. Ficou magoado.
E o dito amigo dele resolveu não ir se eu estivesse em casa, disse-me o Folgado.
- Pois diga ao seu amigo que a casa, com ou sem mim, é MINHA. Se ele não me quer na minha casa, eu não o quero aqui.
- Não se preocupe! Vou falar para ele nem pisar na calçada! - abespinhou-se.
- Ótimo. Obrigada.
Ele piscou, surpreso. O surto de revoltadinho não fizera nenhum efeito.
Dias depois, fui, morta de cansada, ao ensaio. No meio do caminho, recebo uma mensagem no celular que não haveria ensaio.
Meia volta volver. Iria curtir ficar sozinha em casa, porque o Folgado estava se arrumando para sair com os amigos e só voltaria tarde da noite.
Abri o portão, entrei em casa e o amiguinho do Folgado virou-me ostensivamente as costas.
Mano, fiquei doida, surtei, encaralhei geral, bruta sacanagem a desse sujeito!
Gritei, expulsando-os de casa, louca, histérica. O doido maluco se passando, gente!!! Todo na pose dentro da MINHA casa! Virar-me as costas, imagina aí! Endoidei. Certeza que nunca esperavam isso de mim, eu que estava sempre tão cordata.
Acontece que eu não sou mansa; apenas estava deprê total. E, nesse momento, voltei a mim mesma - eu, maluca que não leva desaforo.
Bem dizia Minha Vó que "remédio para doido é doido e meio". O Folgado passou o resto do fim de semana fora.
Quando voltou, no domingo à noite, saiu-se com essa:
- Acho melhor eu sair da TUA casa.
- Que bom que chegaste à mesma conclusão que eu.
Ele arregalou os olhos, que logo começaram a marejar, mas o orgulho o fez engolir o choro e ele foi pegar uns teréns e saiu de casa.
Lógico que esse foi só um primeiro passo. Tirar todas as coisas, pegar a cópia da chave de volta foi todo um processo, que não contarei aqui.
Óbvio também que, depois que percebeu que eu não pediria para ele voltar, ficou sem falar comigo.
E suspeito vivamente que, na versão dele, sou a bruxa perversa que o expulsou de casa sem dó nem compaixão só porque eu não gostava do amigo dele. Ou algo similar.
Faz parte.
No entanto, o que me ficou de toda essa história é prestar atenção em como a pessoa se define, como ela se situa, se afirma ser. O Folgado sempre posava de vítima da humanidade, que ninguém isso, ninguém aquilo, ele - pobre coitado injustiçado - que não tinha nada nem ninguém por ele.
Mentira.
Ele é inteligente, bonito, divertido, sabe ser agradável e está sempre cercado de amigos.
Ele tem tudo para ser benquisto e acolhido.
Ele é quem boicotava a si mesmo.
Sabe? Parece ser o tipo de pessoa que só gosta quando o outro o maltrata.
Masoquista afetivo, vá entender.
Mas depois desta, comecei a prestar mais atenção em como a pessoa se situa em relação aos outros.
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