Gisela e Prisco

GISELA E PRISCO 


Gisela e Prisco são diretamente responsáveis por existir, hoje, Tt & Loba.
Criança +10, andava nas biblioteca do colégio, que dispunha de várias coleções infantojuvenis e embora muitos idolatrassem a série vagalume, da Ática, quase brigando pelos volumes disponíveis, eu achei nas prateleiras mais baixas os livrinhos empoeirados e esquecidos da Ediouro. 
Formatinho, colado e não costurado, os livrinhos da Ediouro cativaram-me desde a apresentação.
E a série Gisela e Prisco veio ao encontro do quase ideal de adolescência. 
Gisela era uma adolescente carioca, inteligente e destemida, que andava resolvendo casos ao lado de Prisco, seu pastor alemão.
Pronto!
Tinha um cachorro, era tudo de que eu precisava. E não qualquer cachorro, mas um parente do Rin Tin Tin, do Lobo, do K-9, do cachorro da Sarah Connors na cena final de "Exterminador do Futuro", do cachorro do Max em "Mad Max". A raça queridinha dos anos 70-80 era, sem dúvida, o pastor alemão.
Gladis, a autora, produziu 15 títulos nos quais, invariavelmente, Gisela investigava algum caso, metia-se em apuros, Prisco a salvava e a polícia chegava.
Jornada tipicamente policialesca. 
E eu adorava. 
No entanto, algo me iluminava o ânimo: Prisco andava, sempre, ao lado de Gisela SOLTO. Sem guia, apenas a coleira. Sim, do mesmo jeito que seus famosos parentes supracitados. Soltinho da Silva. 
É claro que eu quis porque quis fazer igual.
- Ain, é perigoso cachorro solto.
Concordo. Moleques já atiraram pedras, uma mocinha já pulou berrando feito doida na frente da Loba, outros cachorros cercaram e morderam-na enquanto o dono olhava de braços cruzados, um motoqueiro já avançou nela (esse eu bati bem muito com a guia).
De fato, é muito perigoso - para o cachorro. Não existe bicho mais perigoso do que o homem.
- Ain, mas não se pode confiar!
Fi, eu não confio em planta, o que dirá bicho!
E te digo mais! Confio mais em bicho do que em gente.
- Ain, mas pode passar uma criança...
De fato. Toda vez que vejo criança, pego minha cachorrinha para bem pertinho de mim a fim de proteger minha patuda. 
A gente não pode mesmo confiar em criança, que criança não tem limite, tem toda a razão.
- Ain, mas ela pode morder alguém.
Ah, mas tu te achas muito gostosa, não é? A minha cachorrinha é muito bem tratada, benhê! Eu posso almoçar ovo, mas ela tem que ter o frango desfiado ou o patê de fígado ou o picadinho para misturar com a ração. E ela ainda rejeita, às vezes! Mas tua perna ela vai querer morder por causa de quê, já?!! Ééégua!!...
Minha cachorrinha tem paladar, pequeno! Não bota qualquer porcaria na boca nem e nem!
Vut!
Sim. Transformar um ideal em realidade custa caro à minha inexistente paciência. Mas seguimos fortes por mais de oito anos.
No entanto, nove anos de cãovivência tranquilizou a vizinhança. Até as meninas do terço, um grupo de senhorinhas banhadas qie se reúnem na calçada de uma delas, toda tarde, se derretem pela minha patuda.
- O cachorro mais educado do bairro! - gabam a moleca, com direito a fazer vozinha docinha.
E a enxerida da orelhuda se abana, felizona da vida, língua despencada na lateral da boca rasgada em um sorrisão.
Até os mais sérios se derretem, inclinando a cabeça.
E, acaso algum desavisado passe susto, todos tranquilizam:
- Não faz mal a ninguém, pode ficar tranquilo.
E sorriem.
E ai de mim quando vou ao mercado que logo me perguntam pela cãopanheira. E perguntam se ela está bem.
Minha patuda virou quase que um patrimônio do bairro.
🐾


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