E.Q.M - SEM MEDO DA MORTE

E.Q.M - SEM MEDO DA MORTE


Muita gente que tem medo da morte parece ter um ponto em comum: nunca estiveram nos portões da morte.
Em grupos de pessoas que sofreram Experiência de Quase Morte - EQM, no entanto, é comum ver pessoas que, praticamente, ansiamos por quando essa danadinha da Morte finalmente chegar. Talvez porque tenhamos tido um vislumbre do outro lado, talvez porque saibamos que temos nossa hora e, eventualmente, ainda podemos escolher.
Surpreendente porque, mesmo sendo uma experiência solitária, geralmente a descrição  do que viu, quem abordou, de como se sentiu são muito semelhantes.
É uma vivência tipo amostra grátis; apenas vislumbramos o que está por vir, mas não nos é permitido cruzar as fronteiras entre vida e morte. No entanto, a sensação de plenitude, de bem-estar, de PAZ é tão forte que parece palpável.
Como que foram as minhas duas EQMs? Bem... aqui um spoiler: a segunda foi continuação da primeira. Pega aí o código-fonte! Pegou? Pois segue o 🧵
Mãe, Minha Vó e eu - nossa família toda - tínhamos a pressão baixa. E todas passamos por sustos nesse quesito.
Quando a pressão baixa, a sensação é identicamente descrita na morte por congelamento. Os membros vão ficando inertes, a língua pesa, o cérebro enevoa e nos sentimos impelidos ao desmaio - e, do desmaio, ao sono; o sono da morte.
Médicos dizem que é mais fácil baixar a pressão alta do que subir a baixa. Ambas são perigosas e a alta é mais usual. Acontece que um surto de pressão alta não passa despercebido, já o da pressão baixa... a letargia vai evoluindo até chegar ao desmaio - e é aí que mora o perigo. Eventualmente, há convulsões - até parece a alma se desprendendo do corpo.
Pois bem. Pegou a ideia, né? 
Minha pressão baixou com tudo, após uma injeção de dipirona, dada sem perguntar sobre minhas alergias prováveis, no hospital. Foi efeito instantâneo e como eu estava na cadeira de rodas, ninguém percebeu que eu estava lutando para me manter viva. Forcei-me a dizer: 
- Não estou bem - e o namorido  foi buscar um copo d'água, sem perceber que eu estava à beira de uma convulsão.
Ele voltou, pôs o copo na minha mão, eu olhei para o copinho descartável na minha mão - e apaguei.
Ele me contou que, quando tornei a mim, eu teria dito:
- Voltei.
Ele me contou, mas eu não me lembro. E a pergunta é: Voltei de onde? 
Simples: das fronteiras da morte - um lugar acolhedor, suave no qual eu quis ficar, mas não me deixaram. 
Não me deixaram - no plural, porque foram três seres (anjos, a meu ver, sem asas) que me impediram de prosseguir.
- Volte. 
- Ah, mas por quê?
- Não é sua hora.
- Ahh... mas deixa eu ficar, vai lá! - e o olhar acariciando a grama convidativa sob aquela árvore bem acolá, talvez uns trinta passos.
- Não, não pode, não chegou a sua hora.
- Mas eu quero ficar! - teimosa e cheia de vontade - Aqui é tão bom.
- É, mas seu dia vai chegar - e não é hoje.
- Ah, mas eu não quero voltar.
O anjo do meio estava prestes a me dar umas palmadas, e percebi que outros seres, notando que aqueles três estavam com uma mortal mais teimosa que mula velha, se aproximavam meio pressurosos.
- Ah, não! - pensei, desalentada - fazer barraco nos portões da morte e ser vergonhosamente expulsa, aí já é demais!
Resolvi, finalmente, dar atenção à voz longínqua do namorido gritando longe, longe o meu nome.
- Tem alguém me chamando...
- Isso! - o anjo do meio quase suspirou de alívio.
Voltei, portanto. Mas não de forma definitiva, que fui lá uma segunda vez (sim, pressão baixa e convulsão de novo), quando fui mais teimosa ainda, mas isso é mais do mesmo, deixa quieto.
O importante é que apreendi alguns pontos sobre a morte.
Citando Richard Bach, que na contracapa de seu segundo livro, "Ilusões", há o trecho que resume o livro:
"Aqui um teste para saber se você terminou sua missão: se você está vivo, não terminou."
É sobre isso, sabe?  Cada um de nós tem a sua hora - e querer antecipá-la, mano,  não vai dar legal. Porque se sua hora não chegou, é óbvio que ainda tem estrada a ser percorrida. Vida que segue.
Uma amiga passou meses em coma. Sabendo disso, perguntei-lhe se ela vira o outro lado e ela disse que sim e que a ela foi dada a escolha de ir ou ficar, no entanto, fizeram-na ver que havia gente neste plano que ainda precisava dela. E ela decidiu voltar. Desenganada pelos médicos, devagar ela vem contrariando os diagnósticos  deles. Ela ainda quer fazer valer mais ainda essa vida antes de ir. 
E, sem medo, aguarda a morte - como a uma amiga que a acolherá calorosamente. Mas até lá, lutar e viver intensamente. 
Outro ponto que percebo em comum com os que sofreram EQM: temos a vida como matéria de trabalho. 
A ideia de "missão", sabe? Fazer o nosso melhor para quando chegar a hora,  podermos transpor tranquilamente  as fronteiras desta vida. 
Já me deparei com uma perspectiva diferente no filme "Linha mortal", dos anos 90, traz , que versava sobre as dívidas da vida. Mas percebo essa perspectiva como resultado de um medo doentio da Morte, essa  desconhecida.
Talvez seja isso, em resumo: o medo da morte não passa do medo do desconhecido. Mas é um pensamento tolo, porque  Chicó, personagem  de Ariano Suassuna  em "O Auto da Compadecida", resume, em um epigrama quase, a inutilidade de se preocupar com a  (segundo Manuel Bandeira) iniludível:
"Para morrer, basta estar vivo."
🔚

Tetê Macambira
Publicado no threads, 1.11.2024

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