CAUSA SECRETA

CAUSA SECRETA


Simplesmente, meu conto favorito do Machado.
Dito isso, deixa eu fazer feito Jack, o estripador: ir por partes.
1. LITERATURA BRASILEIRA - Em se tratando de literatura ocidental, o país que sempre primou pelas letras foi, sem dúvida, a França. Nos anos 90, perguntei ao diretor teatral Jean-Pierre HEURTIER, parisiense formado em Letras, qual escritor brasileiro era reconhecido na academia e ele, sem titubear: Machado de Assis. Insisti, teimosa que sou, "E Paulo Coelho e Jorge Amado?" - que eram, na época, os autores brasileiros mais traduzidos. Ele fez um muxoxo e reiterou, "Na academia de Letras, na Sorbonne, eles consideram Machado. Paulo Coelho, meio que desprezam." 
2. MACHADO DE ASSIS - Obviamente, eu já havia lido Machado - e não tinha sintonizado. Voltei, anos depois, a lê-lo. Não sei se é necessário um quê de maturidade para conseguir mergulhar em Machado - mas sinto que foi este o meu caso. Redescobrir Machado foi como, de repente, entender aquele velho amigo da família, cujo discurso nos era incompreensível e que, anos depois, a gente começa a entender. O Bruxo do Velho Cosme (ainda escrevo uma crônica, uma novela, uma elegia com esse título! Destá! O pezinho de cá-te-espera já está plantado!) não tolerava, pelo visto, imaturidades e gente rasa. Tipo de leitura que exige um grau bem alto de observação do gênero humano, de um mínimo conhecimento dos arquétipos humanos e do discurso subliminar. 
Por exemplo: importa se Capitu traiu ou não 
Bentinho? CLARO QUE NÃO! O que importa, de fato, é que Bentinho queria ser corno, gente! Ele se sentia tão inferior que era óbvio, na cabeça dele, que seria traído - e dupla traição: da mulher e do amigo. José(?) Bento seria um prato cheio, que digo?, seria uma refeição completa para qualquer divã - haja vista o sentimento de pseudoinferioridade que o acometia.
Certo, entendo que todos queremos mesmo é a fofoca se ele teve a cabeça enfeitada pela mulher, Capitu, e se foi esfaqueado pelas costas por Escobar. Mas isso fica para a conversa no bar. 
Se vamos falar a sério sobre essa obra - o tema é o CIÚME. Ponto.
Mas até essa digressão na leitura de "Dom Casmurro" parece ser invenção articulada pelo Quinzinho (é que depois de ler e reler JoaQUIM Maria Machado de Assis, peguei intimidade ao ponto de apelidá-lo de Quinzinho, sabe?) para demonstrar como reagimos de forma equivocada às situações humanas. Bem tipo assim:
- Tu sabes o Bentinho?
- Sei, que houve?
- Mana, nem te conto, mas ele está firme na ideia de que a Capitu meteu-lhe dois cornos.
- Ai, não diz! Mas ele pegou no flagra, foi?
- Nada, m'nina! Mas ele tem convicção.
- Ah, mas aquela-lá também, né? Nunca foi lá muito cheirosa...
- E não é!?? 
Não é questionado o acusador acusar sem provas, só "convicção" - mas a sanha humana em culpabilizar, em apontar falhas imaginadas é colossal! Assim, (quase) nunca se questiona o ciúme doentio de Bento, mas sim, a probabilidade da traição de Capitu.
Quinzinho, seu safadinho! Hás de estar gargalhando há séculos ao lado de d. Carolina. Só te olho, p'queno!
Eu poderia ainda ficar tretando em cima do Quinzinho madrugada adentro, mas duvido que o thread aguente tanta tietagem. 
Portanto, resumir aqui que Machado parece ser o autor brasileiro que ainda promove balbúrdia literária. Sigamos.
3. CAUSA SECRETA - De todos os gêneros literários em que Machado trabalhou, CONTO é o meu favorito. Simplesmente amo os contos machadianos. E dentre esses, "Causa Secreta" é o meu número 1. Percebo - e esta é uma perçepção minha, que nunca li em nenhum outro - uma correlação desse conto com a própria escrita machadiana. Para melhor compreensão, aqui uma sinopse do conto:
A conhece B quando este ajuda um desconhecido acidentado com extrema empatia aparente até que ele sare e B some. Anos depois, A e B reencontram-se e vão trabalhar juntos em uma clínica e A vê essa mesma dedicação de B aos pacientes mais graves, desinteressando-se deles so sararem. B casa-se e A visita o casal com frequência, chegando a desenvolver uma paixonite platônica pela mulher do amigo. Em uma dessas visitas, A surpreende B extasiado em torturar um rato que, desculpou-se B, havia roído documentos. A esposa de B morre e A vai ao velório. B vai repousar um pouco e A, sozinho com a defunta, chora pela paixão reprimida e estava nisso quando B volta, vê a cena... adivinha tudo e se DELEITA com o sofrimento do amigo que "foi longo, deliciosamente longo."
E essa era a causa secreta que movia B: ele se comprazia em observar o sofrimento alheio.
Assim, muitas vezes, vejo em Quinzinho essa análise distanciada e que busca dissecar cirurgicamente a alma humana - eis a causa secreta que deduzo ser a de Joaquim Maria.
Estarei eu errada? Talvez. É apenas uma percepção.
No entanto, vale refletir isso: cada um de nós carrega uma causa secreta que nos move.
Pergunte-se friamente sem apelar para as muletas das leis nem religiões: 
QUAL A TUA CAUSA SECRETA?
Pergunte-se e responda-se, se tiver coragem.
...
Do céu dos escritores, Quinzinho gargalha gostosamente.
🔚


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