ALGUNS TRAUMAS DAS CHINELADAS
Sobre as antigas gerações que apanhavam e temiam os pais e as atuais que nunca levaram uma palmadinha sequer e têm tudo de bandeja, sou - infelizmente - da antiga geração e reconheço que em ambas as situações há seus méritos e deméritos.
Mas eu não estaria lendo Proust em vão e é óbvio que essas questões ativam memórias.
E duas lembranças me saltam:1. CHINELADAS - levava chineladas de Minha Vó (e ela batia com força; a borracha das havaianas naquela época deveria ser mais dura) porque suspeitava que eu poderia ter feito alguma coisa errada e a regra era bater até arrancar a "verdade" (tendo dito isso, não consigo de relacionar ao "método" da ditadura!) e isso me fez criar a verdade que fizesse as chineladas pararem.
Mentia para parar de apanhar. E nem sempre funcionava.
Correção: quase nunca funcionava.
Hoje, adulta, tenho pavor a ter que mentir. Já tive que mentir demais na minha vida.
O ápice foi quando apanhei e comecei a gritar, berrar, chorar feito uma louca para ver se ela ficava com vergonha dos vizinhos e parava, mas ela bateu mais dizendo:
- Ah, tá chorando? Vou bater mais para valer o choro!
Na vez seguinte, cerrei dentes e não soltei um pio para ver se as chineladas paravam, mas ela disse:
- Ah, não tá chorando? Pera que vou bater mais para ver se chora!
🤯
Diz logo que é sádica, pelamor!; e
2. APOLOGIAS - Quando adultei, um dia ela começou a pedir desculpas:
- Filha, fui muito brava contigo, não fui?
Opa! - pensei - Chegou o momento em que vou lavar a roupa suja toda. Finalmente! - e respondi-lhe:
- Foi, sim. A senhora...
E ela me interrompeu:
- Ah, mas era como a gente fazia antigamente e fiz na melhor das intenções.
E virou-se desculpando-se a si mesma (pleonasmo enfático) toda tranquila.
E eu fiquei lá, estatelada e engasgando com o discurso de reparação, o disclaiming.
E foi assim que aprendi que o melhor é a gente mesma se perdoar.
Tetê Macambira
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