Quinze anos de fim de mundo


Primeiro Dia na Nova Escola


- Cloroquina de Jesus!
Os risinhos abafados por trás das máscaras dos colegas me irritaram. Era sempre assim: 15 anos depois do início da pandemia que decretava o inexorável fim do mundo e as pessoas ainda se riam da linda "homenagem" que meus pais fizeram ao momento - embora tenham me repetido que todos estavam convictos de que a cura apareceria. Não sabiam que o vírus era extremamente mutável... e ceifador.
Pais nunca pensam no que o filho vai sofrer na escola quando registram a gente! E o registro sendo digitalizado, os primeiros pais COVID foram extremamente ... criativos.
- Covid Trump!
Novas risadas. Procurei pelo Covid, solidária. Era um rapaz grande, mas magrelo, e louro, de um louro baço. Ah! grande e louro... entendi o porquê do "Trump". Pobrezinho. Logo do presidente que foi o IRresponsável pela maior onda de contágio, quando exigiu que a América Latina abrisse portos e aeroportos aos americanos sem testá-los ou não fariam mais negócios com a nação que bloqueasse entrada de estadunidenses. E foi assim que a piora começou.
Covid se encolhia todo e percebi os valentões da sala olharem ameaçadores para ele. Eita... era um sinal de que Covid era perseguido por cyberbullying, no mínimo, devia ter seu celular hackeado duas vezes por semana. Violência digital, não mais a física como nos tempos dos nossos pais. Mudam-se as práticas, mas a violência continua.
A professora, uma senhora aparentemente perto dos 50 anos, abriu a lousa digital da baia dela. As poucas e seletivas escolas presenciais (a grande maioria estudava em casa, pela rede nacional de Tele-ensino; para se ter acesso a uma escola presencial precisava ou de muito dinheiro ou das melhores notas para ganhar uma bolsa de estudos) contavam com salas formadas por baias que eram separadas por meias-paredes de acrílico transparente, mantendo o isolamento, haviam copiado a ideia das megaempresas corporativas, apenas aumentando o isolamento com essas meias-paredes transparentes.
Na lousa digital, surgiu uma imagem em preto e branco de uma escola antiga. Carteiras de madeira em que se sentavam, lado a lado, dois alunos. Os palhaços de sempre não demoraram a construir piadinhas.
- Ai, dona Mercedes, quem me dera sentar assim ao lado da novata, a Cloroquina! Adoro garotas de longos cílios!
- Acho que a Cloroquina - interveio um parça do que se achava engraçadinho - já tem par.
- É?! Quem?
- O Covid, ora! Ela é a cura prometida para o Covid!
Risos altos, ainda que abafados pelas máscaras. Como professores antigamente davam aula para o triplo de alunos SEM máscaras? Devia ser um inferno!
Olhei para o Covid. Ele me encarava entre penalizado e irado. Ué?! Como assim, seu moço?! o que foi que eu perdi?
Dona Mercedes comentou sobre as diferenças de ensino daquela época e pediu-nos para escrevermos nosso tratado sociológico comparativo da educação em dupla.
Ela acionou o programa que ligava os nossos computadores aos pares na sorte. Olhei para a tela de meu monitor para saber quem seria meu par. Peraí! que bruxaria era essa?! COVID?!!!
Olhei, em pura perplexidade para o Covid. Ele redirecionou meu olhar a um rapaz de capuz e de luvas ao lado do "Engraçadinho". Ele,  "Capuz", terminava de digitar algo e fazia "OK" com os dedos enluvados para o palhaço.
Não acredito! Eles haviam invadido nossos computadores da escola!!!! Ergui o braço e ia chamando dona Mercedes, quando Covid atalhou-me:
- Dona Rita, a Novata e eu podemos fazer nosso tratado na sala de estudo da biblioteca? Assim ela já aprende onde é e a nossa pesquisa fica mais aprofundada, com o material físico de lá.
"Novata". Melhor do que meu próprio nome. Quero ser chamada de "Novata" sempre, mesmo quando for veteraníssima. No-va-ta.
Gostei.
Rebatizada, segui docilmente Covid a duas largas passadas atrás dele. Hmmm.. e se eu o chamasse de "Veterano"?
Fomos à biblioteca, onde ele se dirigiu à bibliotecária digital e solicitou duas baias computadorizadas na sala de estudo da bibliô.
Sentamos em nossas baias que ficavam uma de frente para a outra e, retirando a máscara com o desenho do vírus pintado nela, ele falou baixo por trás do vidro de proteção:
- Nunca, NUNCA mesmo, use o computador da escola ou o seu celular para assuntos pessoais. Aliás, recomendo que você compre imediatamente outro celular e nunca o traga para a escola e nem tenha o número desse segundo aparelho salvo neste que você tem. Jambo e seus correligionários costumam invadir tudo.
- Mas isso é ilegal!
- Cloroquina, você descobriu a cura para o covid! Uau!
Ri meio sem graça. Óbvio que era ilegal. Óbvio que eu não poderia dizer nada.
- Ah! outra coisa!
- Diga, Veterano! - bati continência, tentando fazer graça.
- Covid. Meu nome é Covid. Mas me chamam aqui de Fim-de-Mundo.
- O que você prefere?
- Que você NÃO me trate diferente. Chame-me de Fim-de-Mundo assim que ouvir os outros me chamando e não fique mais estabelecendo contato visual comigo na sala de aula. Ignore-me.
- Ah... certo. Posso saber o porquê?
- Já tenho mais problemas do que eu gostaria. Apenas faça isso. Agora, vamos terminar logo esse tratado.
É isso aí, Quiqui - pensei torcendo a boca em desagrado enquanto pegava meu caderno dgital - bem-vinda à nova escola da sua nova cidade. Uhuuu!!!
Fizemos o trabalho, entregamos. E tudo teria parado por aí se Jambo e seus rambos-mambos não tivessem inventado aquela história...

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