Clube de Leitura Dona Chita - Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
Clube de Leitura Dona Chita
Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
de Firmino Teixeira do Amaral
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| Fátima Mariano, Wosley Nogueira, Arusha Oliveira, Stélio Torquato Lima, Liduína Gaudêncio, Tetê Macambira, Patrícia Cacau e Beto Gaudêncio. Clique de Sílvio Holanda |
Domingo, 31 de março de 2019 – das 9h30 às 11h
Dona Chita Café & Loja – Des. Praxedes, 199, Fortaleza/CE
é 1 dedo, é 1 dado, é 1 dia
A Peleja Inexistente
Arusha concluíra a última reunião do Clube de Leitura Dona Chita (24 de março)
jogando essa bomba no meio da mesa sobre nossa próxima leitura,
A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho:
jogando essa bomba no meio da mesa sobre nossa próxima leitura,
A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho:
Essa peleja não aconteceu.
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| Clique de Sílvio Holanda |
Assim dito, assim lido – e na reunião debatido.
Eis alguns dos tópicos levantados a fim de defender que essa peleja é, de fato,
uma belíssima de uma ficção:
uma belíssima de uma ficção:
a) A peleja é um embate feito na cantoria e que exige alguns princípios.
O cordel pode ser de caráter documental ou ficcional, assim como há outro cordel
de Peleja contra o diabo – peleja esta que ninguém há de crer como documentário, mas ficção.
Portanto, há antecedentes comprovando a possibilidade dessa teoria.
O cordel pode ser de caráter documental ou ficcional, assim como há outro cordel
de Peleja contra o diabo – peleja esta que ninguém há de crer como documentário, mas ficção.
Portanto, há antecedentes comprovando a possibilidade dessa teoria.
b) O narrador não é o Cego Aderaldo nem Zé Pretinho, mas uma terceira pessoa, Firmino.
E como é que ele teria decorado toda a peleja? E embora as primeiras sextilhas
anunciem o Cego Aderaldo como narrador, o autor do cordel é Firmino. Portanto...
E como é que ele teria decorado toda a peleja? E embora as primeiras sextilhas
anunciem o Cego Aderaldo como narrador, o autor do cordel é Firmino. Portanto...
c) Saudação e excelência: os cantadores saúdam o dono da propriedade em que estão,
os convivas, elogiam e agradecem. No cordel, quem apresenta é o narrador.
Os cantadores já começam em um primeiro embate, da parte do Zé Pretinho.
os convivas, elogiam e agradecem. No cordel, quem apresenta é o narrador.
Os cantadores já começam em um primeiro embate, da parte do Zé Pretinho.
d) A peleja é uma das cantorias, um dos gêneros de cantoria que foram inseridos no cordel,
não o contrário – o que torna mais plausível Firmino ter se apropriado desse fato
para emprestar verossimilhança à sua narrativa.
não o contrário – o que torna mais plausível Firmino ter se apropriado desse fato
para emprestar verossimilhança à sua narrativa.
e) Zé Pretinho inexiste, não há uma só foto ou nenhum outro relato senão
esse de Firmino (ah! por isso estranhei o Google não me ter acenado
com nada desse moço!), o que se pressupõe que tenha sido uma criação icônica
para prestigiar o Piauí, desprovido de cantadores afamados.
Não há nenhum outro registro de Zé Pretinho em qualquer outro meio.
Tudo leva a crer que criou-se uma “mitologia” dessa personagem,
inclusive deram-lhe descendência: Cego Aderaldo teria tido peleja
contra o filho de Zé Pretinho e, obviamente depois, o neto.
esse de Firmino (ah! por isso estranhei o Google não me ter acenado
com nada desse moço!), o que se pressupõe que tenha sido uma criação icônica
para prestigiar o Piauí, desprovido de cantadores afamados.
Não há nenhum outro registro de Zé Pretinho em qualquer outro meio.
Tudo leva a crer que criou-se uma “mitologia” dessa personagem,
inclusive deram-lhe descendência: Cego Aderaldo teria tido peleja
contra o filho de Zé Pretinho e, obviamente depois, o neto.
Curiosidade: Cego Aderaldo teria se desculpado pelas ofensas racistas dessa peleja
– dando continuidade à mitologia criada.
– dando continuidade à mitologia criada.
f) Quem decide a vitória da peleja é a plateia e, no caso do cordel,
foi o cordelista-narrador quem decidiu.
foi o cordelista-narrador quem decidiu.
Com todos esses itens debatidos, ficamos quase convictos de que essa peleja,
na verdade, não passa de uma fabulosa mitologia criada pela cantoria piauiense.
na verdade, não passa de uma fabulosa mitologia criada pela cantoria piauiense.
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| Clique de Sílvio Holanda |
Pelejar é boxear com as palavras
Uma das práticas da peleja era insultar o oponente, nem sempre
por pré-conceito do cantador, mas lançava mão do preconceito da sociedade
porquanto o objetivo real fosse desestabilizá-lo e fazê-lo, por conseguinte,
falhar na peleja − ganhar a peleja era o fim que justificaria os meios.
por pré-conceito do cantador, mas lançava mão do preconceito da sociedade
porquanto o objetivo real fosse desestabilizá-lo e fazê-lo, por conseguinte,
falhar na peleja − ganhar a peleja era o fim que justificaria os meios.
Pelejar é tentar levar o oponente a nocaute, a beijar a lona através
das palavras. E, tal qual os boxeadores, eles não se embatem
por questões particulares de desagrado, apenas para provar
quem se sai melhor naquele embate.
das palavras. E, tal qual os boxeadores, eles não se embatem
por questões particulares de desagrado, apenas para provar
quem se sai melhor naquele embate.
No caso de a Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho em estudo,
e lembrando-se que se estava em 1910, a poucos anos da libertação dos escravos,
portanto, o preconceito racial era forte e quase cultural.
Denegrir Zé Pretinho foi dar voz ao que a sociedade da época repetia:
criticar a aparência física dele, fazer associação do elemento negro ao diabo,
remeter à situação de escravagismo, e por aí vai…
e lembrando-se que se estava em 1910, a poucos anos da libertação dos escravos,
portanto, o preconceito racial era forte e quase cultural.
Denegrir Zé Pretinho foi dar voz ao que a sociedade da época repetia:
criticar a aparência física dele, fazer associação do elemento negro ao diabo,
remeter à situação de escravagismo, e por aí vai…
E a pergunta que não quer calar e não teremos resposta é:
Firmino, o autor, teria feito uma catarse dos próprios traumas?
- mas essa é uma questão além do cordel em análise.
Firmino, o autor, teria feito uma catarse dos próprios traumas?
- mas essa é uma questão além do cordel em análise.
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| Escultura de Beto Gaudêncio. Clique de Patrícia Cacau |
Fábula da arrogância versus a humildade
O que não se pode, no entanto, deixar de se levantar é a intencionalidade desse cordel,
considerado um dos dez melhores cordéis de todos os tempos: que se trata,
na realidade, de uma bem construída fábula em que os valores morais representados
são a arrogância na figura prepotente e orgulhosa/ vaidosa de Zé Pretinho
e a humildade na pessoa de Cego Aderaldo.
considerado um dos dez melhores cordéis de todos os tempos: que se trata,
na realidade, de uma bem construída fábula em que os valores morais representados
são a arrogância na figura prepotente e orgulhosa/ vaidosa de Zé Pretinho
e a humildade na pessoa de Cego Aderaldo.
No fim das contas, pode bem ser uma peleja emblemática da arrogância típica
da elite (lembrando que Zé Pretinho vinha ajaezado, todo dândi, boa roupa,
viola enfeitada com fitas, e pôs os anéis da aposta nos dedos) contra
a humilde esperteza do povo (Cego Aderaldo é cego, “cego amarelo”,
pobre, humilhado, a quem olham com desconfiança de que vá cometer algum erro de cálculo).
da elite (lembrando que Zé Pretinho vinha ajaezado, todo dândi, boa roupa,
viola enfeitada com fitas, e pôs os anéis da aposta nos dedos) contra
a humilde esperteza do povo (Cego Aderaldo é cego, “cego amarelo”,
pobre, humilhado, a quem olham com desconfiança de que vá cometer algum erro de cálculo).
Vale ressaltar que a aparência “inferior” de Cego Aderaldo,
somada ao seu discurso apaziguador no início da peleja atraem
as simpatias do leitor; porque sempre torcemos pelo mais fraco
e que se comporte corretamente, apesar de todas as previsões contrárias.
somada ao seu discurso apaziguador no início da peleja atraem
as simpatias do leitor; porque sempre torcemos pelo mais fraco
e que se comporte corretamente, apesar de todas as previsões contrárias.
Há pelejas urbanas
Sim, pelejas existem – e até hoje. Não é mito, nem mitologia, nem conto da Carochinha.
Nas funduras dos sertões os cantadores ainda se apresentam em feiras,
no meio do povo, para a graça e agrado do povo. Cantam, pelejam, fazem repente
e se atualizam com os assuntos atuais.
Nas funduras dos sertões os cantadores ainda se apresentam em feiras,
no meio do povo, para a graça e agrado do povo. Cantam, pelejam, fazem repente
e se atualizam com os assuntos atuais.
Isso sem contar que há modos urbanos de pelejar, versões urbanoides que muito
se assemelham a esse estilo de cantoria, posto que são embates em poesia feitas
de repente e ganha aquele que não titubear, não gaguejar,
não tropeçar na rapidez da construção poética, senão vejamos:
se assemelham a esse estilo de cantoria, posto que são embates em poesia feitas
de repente e ganha aquele que não titubear, não gaguejar,
não tropeçar na rapidez da construção poética, senão vejamos:
hip-hop – batalhassamba – partido alto
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| Clique de Wosley Nogueira |
E o que significaria o trava-línguas 1 dedo, 1 dado, 1 dia?
Professor e cordelista Stélio Torquato Lima, obteve essa resposta de um cantador:
1 dedo = 1 dedo de prosa
1 dado = dados, conteúdos
1 dia = o momento, o instante
Resumindo: 1 dedo, 1 dado, 1 dia é o que fazemos quando nos reunimos:
o momento em que conversamos sobre algum assunto.
Simples – e lindo! - assim.
o momento em que conversamos sobre algum assunto.
Simples – e lindo! - assim.
Tivemos a honra e a sorte de termos dois estudiosos da cultura popular:
Stélio de Torquato Lima e Arusha Oliveira.
Sem eles, esta nota literária coletiva não teria sido tão rica. Gratiluz por terem mais que participado, enlevaram-nos nas asas da poesia popular.
E é com esse epigrama que nos despedimos:
Gratidão por este 1 dedo, 1 dado, 1 dia de muita alegria !
Gratidão por este 1 dedo, 1 dado, 1 dia de muita alegria !
Próxima leitura – mês de abril
Boca do Inferno, de Ana Miranda
Obra selecionada pelos leitores:
Arusha Oliveira − Beto Gaudêncio − Fátima Mariano − Patrícia Cacau
Sílvio Holanda − Tetê Macambira − Wosley Nogueira







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